
Roberto Bulhões/Raphael de Melo/http://www.miseria.com.br
O ex-governador Ciro Gomes foi muito feliz quando declarou que “as águas
do rio São Francisco continuam adoçando o mar”. Analisando friamente o
que disse Ciro, é a mais pura verdade dita por um político, considerada
como “linguarudo” ou de “pavio curto”. Ciro Gomes classificou como
imbecis e cruéis àqueles que se opõe a transposição das águas do São
Francisco, que, se estivesse prontas, milhares de pessoas não estariam
sofrendo as mazelas da seca. Seca essa, que, ao longo de décadas, sempre
foi e continuará sendo cabide de emprego para muitos e moeda de
barganha para políticos corruptos e malvados que exploram seu povo.
Pesquisando sobre o que foi escrito até agora sobre seca, encontramos
muita coisa e soubemos que, desde a descoberta do Brasil, o fato nunca
foi novidade. Quem viu o Jornal Nacional na noite de, onde o repórter
Pedro Bassan fez uma excelente reportagem, com certeza ficou estarrecido
com o que ele mostrou. Dentro do quadro JN no ar, Juazeiro do Norte foi
a base para Bassan percorrer mais de 500 quilômetros, indo ao Piauí,
Pernambuco e Sul do Ceará para mostrar a dura realidade ora existente.
A estiagem que ora enfrentamos no Nordeste este ano só acontece de 30 em
30 anos. A história está ai para comprovar. Foi assim em anos
anteriores e as mais famosas datam de 1983/84, 1935 e 1887. Para os
nordestinos que já se acostumaram desde o nascimento, a seca não é
nenhuma novidade. O sofrimento de quem vive nas regiões atingidas pela
seca é comum e fácil de solução. Ao invés de se falar em políticas de
combate à seca, bem que deveria sair do papel os projetos de convivência
com o clima do semiárido, o que é apontado como a solução para o drama
sertanejo.
A seca no Nordeste é um fenômeno bastante conhecido. O estado brasileiro
reconhece isso desde o início do século 20, quando criou o Instituto
Federal de Obras Contra a Seca, que é percursor do Dnocs (Departamento
Nacional de Obras Contra as Secas). O problema é que esses órgãos foram
aparelhados pelas oligarquias. O discurso da seca rendeu muitos
privilégios para poucos, fazendo açudes em propriedades particulares,
com favorecimento de carro-pipa. Ou seja, uma longa incompetência em
atenuar os problemas do fenômeno.
A verdade é uma só: ninguém quer perder a “indústria da seca”. Essa
desgraça da natureza abate-se por século na região nordestina, e nenhum
governo tomou coragem de enfrentar esse problema de frente. Nenhum.
Cria-se sim, muitos organismos que dão emprego a incompetentes e
protegidos, muita verba que é desviada e benefícios para os que menos
precisam de ajuda. Ao povo nordestino, sobra a sorte do destino, e as
rezas ao Padre Cícero. Só. Quando uma nação vê, sente e acompanha o
drama de um povo como o bravo nordestino, e volta suas atenções aos
preparativos de uma Copa do Mundo e de uma Olimpíada, com custos de
bilhões, e nem 10% é investido no Nordeste, é realmente um gesto
desumano. O sertanejo chora quando vê seu gado morrer. Chora, mas não
derrama nenhuma lágrima, pois nem água tem para verter uma lágrima.
Mas isso não sensibiliza os políticos. Para eles interessa sim, adquirir
caminhões pipa para poderem vender o precioso líquido aos flagelados, e
deles obterem lucro. Água tem no nordeste. E muita. Está toda no
subsolo e o governo sabe disso. Mas ninguém quer extraí-la, pois iria de
encontro com a política do bem-estar popular. Povo com fome e sede, é
povo submisso. No Piauí, Ceará, Rio G. do Norte, Paraíba e Pernambuco,
existe um lençol freático, que talvez seja um dos maiores do mundo. A
própria Petrobrás sabe disso, quando iniciou suas perfurações em solo
nordestino. E por que não fazer poços em pequenas propriedades? Essa
obra do desvio do rio São Francisco, é na realidade uma indústria de
corrupção com preços alterados e a obra em passo de tartaruga manca. Na
fila, estão milhões de brasileiros esperando para saciarem a sede... que
ainda irá demorar muitos anos, se sobreviverem.
Nenhum comentário:
Postar um comentário