Atualizado em
02/02/2013 10h17
Festa para a rainha do mar lota a praia do Rio Vermelho, em Salvador.
Fila para deixar oferendas é grande na manhã deste sábado (2).
(Foto: Egi Santana/G1)
O dia ensolarado é mais um convite à praia do Rio Vermelho. Muita gente prestou suas homenagens cedo e resolveu se refrescar nas águas calmas e de temperatura agradável para o banho. Embora o mar fique tomado pelas oferendas, banhistas acharam um espaço no casa da Rainha do Mar para aproveitar o início do fim de semana com um dos programas preferidos do baiano: a praia.
(Foto: Egi Santana/G1)
As pedras da praia do Rio Vermelho são o acesso para as águas. Aos poucos, os balaios com flores, espelhos, pentes e outros utensílios de beleza são deixados para agradar a entidade que tem como maior característica a vaidade.
Por causa da tradicional aglomeração na orla, o trânsito foi modificado nas imediações do Rio Vermelho. Até por volta das 8h40, o fluxo na Avenida Garibaldi, um dos principais acessos à festa, estava tranquilo. No entanto, a previsão é de que seja formado congestionamento na via ao longo do dia.
História
Conhecida como uma das mais populares festas de celebração pública do candomblé, o festejo acontece desde 1923, quando houve uma diminuição na oferta de peixes da Vila dos Pescadores do Rio Vermelho. A tradição conta que eles pediram ajuda ao orixá, conhecida como a Rainha do Mar, e seguiram para ofertar presentes para Iemanjá. A oferta foi feita no meio do mar e, desde então, a festa é realizada todos os anos no dia 2 de fevereiro.
A festa começa antes do raiar do sol do dia 2 de fevereiro. Mas há quem prefira homenagear o orixá, conhecido como "rainha do mar", um dia antes, para "evitar a muvuca de gente", como a dona Maria dos Reis, de 80 anos, que se deslocou da Liberdade, bairro distante e um dos mais populares da cidade.
Iemanjá (Foto: Egi Santana / G1)
Segundo ela, a tradição herdada dos pais e dos avós é respeitada todos os anos, com agradecimentos e entregas de presentes. "Este ano trouxe pente, perfume de alfazema e espelho, porque ela é vaidosa assim como eu", relatou.
Dona Maria deixou os seus presentes no interior da "Casa de Iemanjá", localizada na Colônia de Pescadores do Rio Vermelho. As lembranças dela e de todos os fieis são colocadas em balaios e organizados em uma estrutura chamada de "Caramanchão" entre esta sexta-feira (1°) e o dia da festa, que este ano acontece no sábado (2). Os pescadores seguem para o mar e doam os presentes a Iemanjá.
"Serão cerca de 300 balaios médios arrecadados nos dois dias. As pessoas trazem pentes, alfazema, espelho, flores e presentes dos mais variados. Trazem aquilo que a fé ou as promessas pedem que tragam, até objetos pessoais", explicou Luís Gonzaga dos Santos, um dos responsáveis pela organização das oferendas.
Esse foi o caso de Roberta Pimentel, 35 anos, moradora de Itapuã. Ela, que viveu por 10 anos nos Estados Unidos, fez questão de levar os presentes na Loca, vestida de azul e branco, com direito a um banho de mar na chegada. "Como forma de agradecimento mesmo. Quando estamos fora, percebemos como o nosso povo baiano é acolhedor e é acima de tudo respeitador das outras religiões. Aqui você pode dizer a um católico ou a um evangélico que irá levar suas oferendas que eles irão respeitar. Podem até discordar, mas vão ficar com suas opiniões e o respeito será mantido", avalia. Roberta Pimentel realizou o ritual acompanhada da mãe, Nicéia, que passou para a filha a tradição.
Além do perfume de alfazema e de produtos de beleza, as flores estão entre os presentes mais tradicionais oferecidos a Iemanjá. "Nos dias normais, a gente vende a unidade a R$ 2, ou R$ 1,50, a depender do dia. Amanhã, a gente vai vender por R$ 3 , ou duas por R$ 5, a depender da conversa do cliente", explicou a vendedora Rita de Cássia. Há mais de 10 anos ela vende rosas, flores do campo e a chamada "sorriso de Maria" em frente à colônia dos pescadores, conforme conta.
O "axé", como chamam os integrantes do candomblé, é o ritual feito para purificar os devotos, como explica o pai-de-santo Ricardo de Oxúm. "São cerca de sete mil pessoas que esperamos atender amanhã. No ritual do arroz, que é o alimento de Iemanjá, colocamos o milho de Oxóssi, o girassol, a lentilha, a água de cheiro preparada, a aroeira e a Pemba de Oxalá para proteger, purificar e abrir os caminhos dos devotos da rainha", contou o religioso.
Para os adeptos do Candomblé, o dia dois de fevereiro se comemora também o dia de Oxum, rainha das águas doces. Por isto, a festa de Oxum se mistura com a festa para Iemanjá. A partir das 22h30 do dia primeiro, os religiosos se dirigem ao Terreiro Oxóssi de Ojimirim, localizado no bairro da Federação. O terreiro permanece de portas abertas para a população que queira acompanhar as obrigações religiosas. Já as 3h do sábado (2), eles oferecem um presente para Oxum no Dique do Tororó e, de lá, seguem em cortejo para o Rio Vermelho, para fazer as oferendas a Iemanjá.
Às 5h, a festa para Iemanjá é aberta oficialmente, com uma alvorada de fogos e a chegada do presente principal, oferecido pelos pescadores e que, a cada ano, é uma surpresa. Nesse momento, o cantor Carlinhos Brown deverá acompanhar a chegada do presente, com um grupo de percussionistas que saúdam musicalmente o orixá. O público tem até as 15h para deixar seus presentes na Colônia de Pescadores. Às 15h30, mais de 350 embarcações saem em um cortejo marítimo até o alto-mar, para a entrega das oferendas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário