Por Philip Pullella
CIDADE
DO VATICANO, 27 Fev (Reuters) - O papa Bento 16 despediu-se
emotivamente dos seus fiéis na última audiência geral do seu
pontificado, na quarta-feira, quando disse que entende a gravidade da
sua decisão de se tornar o primeiro ocupante do cargo a renunciar em 600
anos. Afirmou, no entanto, que fez isso pelo bem da Igreja Católica.
Falando
a uma multidão estimada em 150 mil pessoas na Praça São Pedro, na
véspera da efetivação da sua renúncia, Bento 16 disse que seu
pontificado teve momentos de alegria, mas também de dificuldades, quando
"parecia que o Senhor estava dormindo".
Sentado
em um trono cor de marfim, na escadaria da basílica de São Pedro, Bento
16 foi frequentemente interrompido por aplausos. Ao final do discurso,
os fiéis e muitos cardeais se levantaram para ovacioná-lo.
Refletindo
sobre as crises que marcaram seu pontificado, Bento 16 disse que "houve
momentos em que as águas estavam agitadas, e havia ventos de proa".
Conforme
ele anunciou no dia 11, sua renúncia entra em vigor às 20h da
quinta-feira (16h em Brasília). Nos dias seguintes, os cardeais iniciam
oficialmente as consultas prévias ao conclave (reunião secreta que elege
o novo papa).
O
papa disse ter grande fé no futuro da Igreja, e acrescentou: "Dei esse
passo com pleno conhecimento da sua gravidade e raridade, mas com
profunda serenidade de espírito".
Amar
a Igreja, acrescentou, implica "ter coragem para fazer escolhas
difíceis e angustiadas, sempre tendo em mente o bem da Igreja, e não de
si mesmo".
Bento
16 diz que decidiu renunciar por sentir-se velho e fraco demais para
continuar comandando uma instituição marcada por crises causadas pelos
abusos sexuais de clérigos contra menores e pelo vazamento de documentos
sigilosos do Vaticano que apontam casos de corrupção e disputas de
poder.
DESPEDIDA ENSOLARADA
Uma
multidão vinda de toda a Itália e do exterior começou a lotar a ampla
praça no começo da ensolarada manhã de quarta-feira. As audiências
gerais do meio da semana geralmente são realizadas em local fechado, mas
desta vez ela foi transferida para a praça a fim de acomodar todos os
que queriam ver pela última vez o alemão Joseph Ratzinger investido no
cargo de papa.
Os
fiéis se espalhavam até o outro lado do rio Tibre e em ruas próximas.
Muitos seguravam cartazes agradecendo ao papa e lhe desejando boa sorte.
"Estamos todos ao seu lado", dizia um deles.
Embora
a renúncia tenha surpreendido muitos católicos e gerado preocupações
sobre seu impacto numa Igreja dividida, a maioria dos fiéis presentes no
Vaticano manifestava apoio e elogios a Bento 16.
"Ele
fez o que tinha de fazer na sua consciência perante Deus", disse a irmã
Carmela, religiosa italiana que vive ao norte de Roma e foi à capital
com outras freiras e com membros da sua paróquia.
"Este
é um dia em que somos chamados para confiar no Senhor, um dia de
esperança", acrescentou ela. "Não há espaço para tristeza aqui hoje.
Temos de orar, há muitos problemas na Igreja, mas temos de confiar no
Senhor."
A romana Carla Mantoni, 65 anos, considera que o papa "foi muito humilde por fazer isso".
"Entendo
por que ele fez. Estava claro desde o começo de que ele se sentia mais
em casa numa biblioteca. Um ótimo homem, mas ele percebeu de coração que
essa era a coisa certa a fazer para si mesmo e para a Igreja, e agora
ele vai rezar, vai rezar por todos nós."
Nem todos concordavam.
"Ele
foi um desastre. É bom para todos que tenha renunciado", disse o
australiano de ascendência irlandesa Peter McNamara, de 61 anos, que
afirmou ter ido à praça para "testemunhar a história".
PROTOCOLO
Na
noite de quinta-feira, após a declaração de "sé vacante", o papa irá se
dirigir à residência pontifícia de Castelgandolfo, ao sul de Roma.
Segundo o Vaticano, ele assumirá o título de "papa emérito" e continuará
sendo chamado de "santidade".
Deixará
de usar os "sapatos de pescador" vermelhos, que são parte da sua
indumentária pontifícia, e adotará os mocassins marrons que ganhou de
presente de sapateiros no ano passado, durante uma viagem a León, no
México.
Também deve passar a se vestir com uma "batina branca simples", segundo o porta-voz Federico Lombardi.
O
selo pontifício e o "anel do pescador" do seu papado serão destruídos,
conforme as regras da Igreja -como se ele tivesse morrido.
Na
terça-feira, o Vaticano disse que o papa estava separando seus
documentos, avaliando quis devem ficar nos arquivos do Vaticano, e quais
são de natureza pessoal.
Entre
os documentos a serem deixados para o próximo papa está um relatório
confidencial feito por três cardeais sobre o escândalo apelidado de
"Vatileaks", no ano passado, quando um ex-mordomo do papa revelou
documentos secretos acerca de casos de corrupção e disputas internas no
Vaticano.
Ainda
na quinta-feira, Bento 16 se reunirá com cardeais -muitos dos quais com
direito a voto no próximo conclave. Às 17h (13h em Brasília), ele
embarca de helicóptero para a residência de verão, numa viagem de 15
minutos.
Lá,
fará uma aparição na janela do palácio pontifício, para saudar
moradores e admiradores que se reunirem na pequena praça do local. Será
sua última aparição como papa.
Às
20h (hora local, 16h em Brasília), os membros da Guarda Suíça que atuam
como sentinelas na residência irão embora marchando, num sinal de que o
trono pontifício está vago.
Bento
16 continuará em Castelgandolfo até abril, quando deve terminar a
reforma do monastério onde ele irá morar, dentro do Vaticano.
Na
sexta-feira, em Roma, os cardeais começam a se reunir para as chamadas
"congregações gerais", reuniões preparatórias do conclave.
Pela
praxe, o conclave deveria começar pelo menos 15 dias depois da vacância
do cargo, mas nesta semana o papa alterou as regras para permitir uma
antecipação. Os próprios cardeais poderão decidir quando iniciar o
processo eleitoral.
Aparentemente,
o objetivo do Vaticano é que o novo papa seja eleito até meados de
março e entronizado antes do Domingo de Ramos, em 24 de março, de modo a
poder comandar as cerimônias da Semana Santa.
Nas últimas duas semanas, os cardeais já realizam consultas informais por email e telefone.
/extra.globo.com/
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