Atualizado em
19/04/2013 08h17
Aldeia Kakané Porã, em Curitiba, é a primeira tribo urbana do Sul do país.
Kaingang, guarani e xeta são as três etnias que formam a aldeia.
O G1 publica até sexta-feira (19), Dia do Índio, uma série de reportagens sobre os indígenas que vivem em aldeias de Curitiba e Região. De acordo com a Fundação Nacional dos Índios (Funai), atualmente existem cerca de 15 mil indígenas divididos entre as tribos Guarani, Xeta e Kaingang vivendo no Paraná. Eles estão concentrados em aproximadamente 17 terras indígenas demarcadas pelo governo federal, onde recebem assistência médica, odontológica e educação diferenciada bilíngue.
O terreno da aldeia tem 44 mil metros quadrados e foi cedido pela Companhia da Habitação Popular de Curitiba (Cohab), com casas construídas pela instituição. As construções têm acesso à água encanada e à energia elétrica. “Precisamos trabalhar para comprar cesta básica, pagar água e luz”, diz o cacique Carlos Luiz dos Santos. O nome da tribo significa "fruto bom da terra". Kakané é do idioma caingangue e Porã, guarani.
A presidente da ONG (Organização Não Governamental) Aldeia Brasil, Sandra Terena, explica que, apesar da origem indígena, os moradores da Kakané Porã levam uma vida urbanizada. “Por estar na cidade, a tribo acabou perdendo elementos visuais. Eles colocaram estacas de madeira nas casas para remeter à cultura indígena”. No meio das construções populares, uma oca figura no meio da aldeia - espaço destinado às atividades em grupo, como as aulas do idioma caingangue, por exemplo.
Lá, dividiram o espaço em “mini casas” e passaram a morar em condições precárias – sem esgoto e com apenas um chuveiro com água gelada para todas as famílias usarem. Assim, foi criada a Aldeia do Cambuí, na Reserva do Cambuí. Após uma série de reinvindicações, o cacique Carlos conseguiu com a ajuda da Prefeitura de Curitiba e da Fundação Nacional do Índio (Funai) o terreno no Tatuquara para fundar a Kakané Porã.
motorista (Foto: Thais Kaniak / G1 PR)
Conectados
As redes sociais são um fenômeno entre os índios da tribo. A adolescente Jaqueline Paraná da Silva, de 15 anos, indígena descendente de Caingangue e Xetá, acessa a internet diariamente. “Uso o computador na casa da minha tia [que mora na mesma aldeia]. Tinha o Ask.Fm, mas agora só tenho o Facebook”, conta a garota, que é estudante da 8ª série da escola regular.
Terminando o Ensino Médio, o sonho de Camila é cursar a universidade. “Sempre quis fazer faculdade de Nutrição. Mas, agora, quero fazer Logística para abrir meu negócio”, conta a jovem que já trabalhou no comércio. Ela é mãe de Thais Krieng, cujo significado no idioma caingangue é "estrela". A menina de seis anos frequenta a 1ª série da escola regular e vai às aulas do idioma, que são ministradas na aldeia por uma professora, também indígena, bilíngue.
A presidente da ONG lembra que, logo após a mudança da tribo para o Tatuquara, algumas pessoas passavam em frente ao local "tirando sarro" dos índios. “É importante entender e lidar com as diferenças. Eles não são inferiores, são diferentes”, ressalta. Apesar de a aldeia ter adotado um estilo de vida urbano, Sandra enfatiza que os índios da Kakané Porã “não vão deixar de ser quem são por usar tecnologia”. Inclusive, ela acredita que o avanço tecnológico seja importante para quebrar os preconceitos existentes em relação aos índios. A aldeia tem até uma página no Facebook.
Aldeia bilíngue
A professora Rosane Rodrigues dá aula da língua caingangue na aldeia duas vezes por semana para as crianças e uma vez por semana para os adultos. Atualmente, o estudo do idioma é a maneira mais concreta da preservação da cultura indígena em meio a uma vida tão urbanizada. Rosane conta que a iniciativa partiu da comunidade. “Idioma é bom para identificar o índio”. Na casa da professora, os quatro filhos falam caingangue. Ela faz artesanato para vender – brincos com sementes, coco e penas, material que precisa comprar para montar as peças.
Os rituais sagrados não são realizados na aldeia, que não tem um pajé. “Sessenta por cento deles são católicos e 40% evangélicos”, afirmou a presidente da ONG. A jovem Camila é evangélica e conheceu o marido, também indígena, por meio do grupo de orações que participava com a mãe do rapaz.
Salão de Cabeleireiro
dentro de casa para atender indígenas da aldeia
(Foto: Thais Kaniak / G1 PR)
Como a maioria dos indígenas da tribo trabalha fora, domingo é o dia em que algumas famílias conseguem se reunir na aldeia, segundo a esposa do cacique. “Tomamos chimarrão, assamos carne, fazemos maionese”, conta Neuza. Eles ainda mantêm o costume de preparar o bolo de cinza, feito com trigo, sal e água. “Lembra um pão sírio”, compara. A receita costuma ser preparada em datas comemorativas e é assada nas cinzas da brasa.
Hoje, uma das preocupações do cacique é a expansão da tribo. Os jovens irão se casar e construir novas famílias, precisando de mais espaço e casas. “Recebemos a orientação de fazer um projeto para adquirir outro local”.
Escola
Uma reinvindicação atual é a construção de uma escola indígena dentro da aldeia. Atualmente, as crianças da tribo estudam em escolas regulares do ensino público e são levadas todos os dias para os colégios por um ônibus do governo estadual. O supervisor de obras do Núcleo Regional de Educação, da Secretaria de Estadual de Educação, Frederico Mangrich, disse que o processo de fundação da escola foi feito em 2011. O colégio terá o nome "Kager Mig-ffe" e será trilíngue, com o ensino dos idiomas: guarani, caingangue e português.
Mangrich explicou que, para a escola ser construída, é necessário que o terreno, onde a aldeia se localiza, seja doado para os índios ou, então, seja feita a cessão do terreno por 25 anos. “É um instrumento de lei exigido pelo governo federal. Os trâmites legais estão sendo encaminhados. Está em andamento, tanto a parte da prefeitura quanto do estado”, afirmou.
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