quarta-feira, 25 de setembro de 2013

"Consórcios" de traficantes de drogas desafiam a polícia no Rio Grande do Sul

25/09/2013 | 06h02

Bandidos voltam a importar drogas conjuntamente com objetivo de reduzir perdas e diluir custos

"Consórcios" de traficantes de drogas desafiam a polícia no Rio Grande do Sul Brigada Militar/Divulgação
Embalagens diferentes (como em apreensão em Vacaria) podem indicar vários destinatários Foto: Brigada Militar / Divulgação
Acossados pela ação da Polícia Federal (PF) nas fronteiras do Brasil e pelas constantes operações da Polícia Civil, os traficantes no Rio Grande do Sul reativaram os consórcios para comprar drogas no Paraguai. Com a divisão dos riscos, eles reduzem os prejuízos quando ocorrem as apreensões. E, ao dividirem os custos de transporte, ampliam os lucros quando colocam a droga no mercado.
A ideia do consórcio é antiga entre os traficantes gaúchos. A formação, segundo o delegado Heliomar Athaydes Franco, diretor de investigação do Departamento Estadual de Investigação do Narcotráfico (Denarc), é favorecida pela estrutura do tráfico no Estado, formada por pequenos grupos — diferentemente do Rio de Janeiro e de São Paulo, onde organizações criminosas como Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital dominam grande parte do comércio das drogas:
— Aumentamos a eficiência nas investigações, que resultaram em operações mais bem-sucedidas.
Mesmo com os principais traficantes gaúchos presos, como Juraci Oliveira da Silva, o Jura, capturado no Paraguai em 2010, e Paulo Ricardo Santos da Silva, o Paulão, detido no Rio de Janeiro, o comércio montado por eles segue funcionando. Na opinião do delegado, esse comércio continua ativo porque o Rio Grande do Sul perfila-se entre os grandes mercados consumidores do país.
Além dos usuários, outro fator fortaleceu o tráfico no Rio Grande do Sul: a implantação do voo entre Porto Alegre e Lisboa, em 2011, que atraiu várias "mulas" — pessoas pagas para transportar drogas. Prova disso foi a apreensão de uma prancha de windsurfe contendo 15 quilos de cocaína no aeroporto Salgado Filho, em 10 de agosto. A prancha — e o homem de 26 anos, detido no aeroporto da Capital — iria para Barcelona, na Espanha, passando por Portugal.
Além das mulas, traficantes uruguaios também estão usando o Estado para a passagem de maconha e cocaína trazidas do Paraguai. A droga comprada nas cidades paraguaias entra na Argentina pela província de Misiones, separada do Rio Grande do Sul pelo Rio Uruguai. Na sequência, barqueiros atravessam a droga para o Estado, de onde ela segue, por via rodoviária, até Montevidéu.
Capturas apenas "enxugam gelo", afirma delegado
A formação do consórcio e as mudanças nas rotas do tráfico pelos traficantes vêm ocorrendo devido à ação nas fronteiras da PF, que recebeu imenso reforço para as operações contra o tráfico de drogas, no chamado Plano Estratégico de Fronteiras. O fortalecimento das ações ocorreu em 2010, depois que o senador paraguaio Robert Acevedo sobreviveu a um atentado em Pedro Juan Caballero, cidade paraguaia separada por apenas uma avenida de Ponta Porã, munícipio do oeste do Mato Grosso do Sul.
Na ocasião, o PCC, que controla a produção de maconha no Paraguai, foi apontado como responsável pela contratação dos pistoleiros. Em consequência, os dois presidentes da época, Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Lugo, chegaram a encontrar-se, na rua que divide Juan Caballero e Ponta Porã.
Um dos braços do Plano Estratégico é a Operação Sentinela, força-tarefa que opera na região. O resultado das investigações feitas na Sentinela tem orientado as ações de apreensões de drogas da PF, conforme o superintendente da instituição, delegado Sandro Caron.
— O aumento das nossas ações nas fronteiras forçou os traficantes a adotar novas táticas. Mas, embora as operações tenham se intensificado, elas não são páreo para a demanda da droga, que incentiva a audácia dos traficantes. O que faz com que a polícia fique enxugando gelo — diz.
GOLPE NO TRÁFICO
As apreensões feitas por Brigada e Polícia Civil
2012
Maconha — 2.300 quilos
Cocaína — 312 quilos
Crack — 308 quilos
2013 (até agosto)
Maconha — 1.900 quilos
Cocaína — 202 quilos
Crack — 223 quilos
A PF também registra vitórias no combate ao tráfico. Nos últimos cinco anos, apreendeu, em média, 350 quilos de cocaína por ano. Em 2013, até o momento, já foram apreendidos 774 quilos

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