
O empresário Marcos Valério disse, em depoimento prestado em 24 de
setembro à Procuradoria-Geral da República, que o esquema do mensalão
ajudou a bancar despesas pessoais não-especificadas do ex-presidente
Luiz Inácio Lula da Silva em 2003.
O jornal O Estado de S. Paulo teve acesso às declarações de Valério e
trouxe detalhes das denúncias na edição desta terça-feira. Ainda de
acordo com a publicação, o ex-presidente deu "ok" para os empréstimos
que serviriam de pagamentos a deputados da base aliada, em reunião no
Planalto com a presença do ex-ministro José Dirceu e do ex-tesoureiro do
PT Delúbio Soares.
Os recursos provenientes do mensalão teriam sido depositados na conta da
empresa do ex-assessor da Presidência Freud Godoy, espécie de
"faz-tudo" do presidente Lula, segundo o jornal. Valério ainda afirmou
que Lula atuou a fim de obter dinheiro da Portugal Telecom para o PT. O
empresário afirma que os R$ 4 milhões pedidos por seus advogados para
defendê-lo no processo foram pagos pelo PT e relatou a montagem de uma
suposta "blindagem" de petistas contra denúncias de corrupção em Santo
André da gestão Celso Daniel. Em outra parte do depoimento, Marcos
Valério diz que o diretor do Instituto Lula e amigo do ex- presidente,
Paulo Okamotto o teria ameaçado de morte caso ele "contasse o que
sabia". Valério conta, ainda, que repassou R$ 512.337 do esquema para
financiar a campanha de Humberto Costa (PT) ao governo de Pernambuco, em
2002. O senador nega.
O mensalão do PT
Em 2007, o STF aceitou denúncia contra os 40 suspeitos de envolvimento
no suposto esquema denunciado em 2005 pelo então deputado federal
Roberto Jefferson (PTB) e que ficou conhecido como mensalão. Segundo
ele, parlamentares da base aliada recebiam pagamentos periódicos para
votar de acordo com os interesses do governo Luiz Inácio Lula da Silva.
Após o escândalo, o deputado federal José Dirceu deixou o cargo de chefe
da Casa Civil e retornou à Câmara. Acabou sendo cassado pelos colegas e
perdeu o direito de concorrer a cargos públicos até 2015.
No relatório da denúncia, a Procuradoria-Geral da República apontou como
operadores do núcleo central do esquema José Dirceu, o ex-deputado e
ex-presidente do PT José Genoino, o ex-tesoureiro do partido Delúbio
Soares e o ex- secretário-geral Silvio Pereira. Todos foram denunciados
por formação de quadrilha. Dirceu, Genoino e Delúbio respondem ainda por
corrupção ativa.
Em 2008, Sílvio Pereira assinou acordo com a Procuradoria-Geral da
República para não ser mais processado no inquérito sobre o caso. Com
isso, ele teria que fazer 750 horas de serviço comunitário em até três
anos e deixou de ser um dos 40 réus. José Janene, ex-deputado do PP,
morreu em 2010 e também deixou de figurar na denúncia.
O relator apontou também que o núcleo publicitário-financeiro do suposto
esquema era composto pelo empresário Marcos Valério e seus sócios
(Ramon Cardoso, Cristiano Paz e Rogério Tolentino), além das
funcionárias da agência SMP&B Simone Vasconcelos e Geiza Dias. Eles
respondem por pelo menos três crimes: formação de quadrilha, corrupção
ativa e lavagem de dinheiro.
A então presidente do Banco Rural, Kátia Rabello, e os diretores José
Roberto Salgado, Vinícius Samarane e Ayanna Tenório foram denunciados
por formação de quadrilha, gestão fraudulenta e lavagem de dinheiro. O
publicitário Duda Mendonça e sua sócia, Zilmar Fernandes, respondem a
ações penais por lavagem de dinheiro e evasão de divisas. O ex-ministro
da Secretaria de Comunicação (Secom) Luiz Gushiken é processado por
peculato. O ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil Henrique
Pizzolato foi denunciado por peculato, corrupção passiva e lavagem de
dinheiro.
O ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha (PT-SP) responde a processo
por peculato, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A denúncia inclui
ainda parlamentares do PP, PR (ex-PL), PTB e PMDB. Entre eles o próprio
delator, Roberto Jefferson.
Em julho de 2011, a Procuradoria-Geral da República, nas alegações
finais do processo, pediu que o STF condenasse 36 dos 38 réus restantes.
Ficaram de fora o ex-ministro da Comunicação Social Luiz Gushiken e o
irmão do ex-tesoureiro do Partido Liberal (PL) Jacinto Lamas, Antônio
Lamas, ambos por falta de provas.
A ação penal começou a ser julgada em 2 de agosto de 2012. A primeira
decisão tomada pelos ministros foi anular o processo contra o
ex-empresário argentino Carlos Alberto Quaglia, acusado de utilizar a
corretora Natimar para lavar dinheiro do mensalão. Durante três anos, o
Supremo notificou os advogados errados de Quaglia e, por isso, o
defensor público que representou o réu pediu a nulidade por cerceamento
de defesa. Agora, ele vai responder na Justiça Federal de Santa
Catarina, Estado onde mora. Assim, restaram 37 réus no processo.
TERRA
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