Atualizado em
24/04/2013 07h45
Aos 16 anos, após separação, ex-namorado a apunhalou pelas costas.
Cirurgia para a retirada do objeto foi realizada em hospital de Sorocaba (SP).
Não imaginava que as dores que senti todos esses anos seriam por causa da punhalada "
Rosmari Rosa
Rosmari preferiu esquecer o dia em que foi agredida e passou a guardar a história para si. Mas, com o passar do tempo, a doméstica começou a sentir muitas dores nas costas, o que a levou a procurar vários médicos. "Foram anos e anos indo ao médico e ouvindo que o meu problema era muscular, ou mesmo tendinite e bursite. Sempre eram esses os diagnósticos. E a dor só passava quando eu tomava injeção", lembra.
A doméstica chegou a ser submetida a sessões de fisioterapia, prescrita por um dos médicos que a atendeu durante esses anos. "Eu fiz de tudo, tomava choque, ligavam uns fios em mim, depois um banho de luz em um forno, alongamento e ginástica. Mas nada disso adiantava", relata, lembrando das noites que passou chorando de dor.
da vítima (Foto: Natália de Oliveira/G1)
Em outubro de 2012 um dos médicos que a atendeu pediu um exame de ressonância magnética. Logo após a realização do exame, as dores nas costas da doméstica aumentaram ainda mais e ela chegou a ficar com uma "bola" nas costas, tamanho o inchaço provocado pela ressonância, que fez com que o pedaço do objeto se mexesse dentro do organismo de Rosmari.
Com o aumento das dores no ombro, Rosmari foi novamente atrás de atendimento, mas com outro médico, da Policlínica de Sorocaba. O ortopedista Walberto Kushiyama ouviu pela primeira vez as queixas da paciente e solicitou vários exames para descobrir as causas das dores, entre eles o raio-x.
No momento do exame, contou a doméstica ao G1, os enfermeiros ficaram surpresos. "Assim que eles tiraram a primeira 'chapa', falaram para eu tirar o sutiã e ver se tinha alguma coisa no meu cabelo, porque algo estava aparecendo no exame. Daí eles tiraram de novo e o mesmo corpo estranho apareceu próximo ao meu ombro. Foi aí que eles viram a cicatriz que eu tenho na região, que é pequena, e me perguntaram o que era, e eu contei da punhalada."
A doméstica foi orientada a procurar o médico imediatamente. "Foi só aí que eu contei a história para o doutor, que logo afirmou que eu tinha um pedaço do punhal no meu ombro, porque pelo exame dava para perceber que era um objeto pontudo e que eu ia precisar retirá-lo."
Foi um achado radiográfico, porque só depois do exame, que ela se sentiu vontade de contar a história"
Walberto Kushiyama
Segundo o médico, apesar das dores, o risco de morte para a doméstica foram mínimos, já que o objeto ficou alojado em uma área segura. "O maior perigo que ela correu foi de uma infecção no momento da punhalada, depois não mais, porque o punhal não atingiu uma área de risco."
Negligência médica?
Em entrevista ao G1, o médico e coordenador de serviços da Policlínica de Sorocaba, Oslan Ferreira, explicou que o caso da Rosmari surpreendeu a todos na unidade hospitalar por causa do tempo em que o objeto esteve no seu organismo sem que ela - nem ninguém - desconfiasse. Porém, conforme ele explicou em entrevista, há 37 anos as técnicas utilizadas para diagnosticar o caso eram outras, por isso não se pode afirmar que houve negligência medica.
“Há 37 anos a medicina era outra. O médico que a examinou achou que era um ferimento simples, conteve a hemorragia e fechou. Hoje em dia não seria mais assim. Teríamos colocado o dedo no corte, examinado se tem algo. Mas isso é uma técnica nova ao compararmos com a época”, explica Ferreira.
Além disso, o coordenador ainda ressaltou a importância do paciente contar tudo para o médico no primeiro contato. “Todo diagnóstico começa com a história do paciente”, lembra Ferreira, que acredita que, provavelmente, Rosmari tenha omitido a história da punhalada por tantos anos pelo constrangimento e por achar que ia ser julgada, de alguma forma, por causa disso.
cerca de 7 cm (Foto: Natália de Oliveira/G1)
A cirurgia de Rosmari para a retirada do objeto foi feita na Policlínica de Sorocaba na última semana. A doméstica estava muito nervosa antes da cirurgia e parecia não acreditar que estava passando por tudo isso. “Às vezes eu tento esquecer, mas daí eu me lembro da cena e percebo que é verdade, é real o pedaço de metal no meu ombro”, desabafou Rosmari, que não conseguiu esconder a emoção ao saber que iria se livrar das dores que conviveu por tantos anos.
Após cerca de 40 minutos de cirurgia, o médico conseguiu retirar o objeto do corpo de Rosmari, que ficou acordada durante todo o procedimento e pediu para que o médico mostrasse para ela o pedaço do punhal, ao qual reagiu com um sincero “cruz credo”. “O organismo dela isolou o material com uma capa fibriótica. O pedaço do metal estava bem profundo, foi difícil de achar, pois estava próximo de um músculo, mas, por fim, deu tudo certo”, explicou o cirurgião plástico Décio Portella.
Nova vida
Logo após a cirurgia, Rosmari já se sentia muito melhor e até chegou a dizer que estava totalmente recuperada das dores que sentiu durante todos esses anos em que o pedaço do punhal estava alojado em seu corpo. “Quando eu deitei na maca eu estava com muita dor, mas depois que tiraram o 'espeto' e eu levantei, não senti mais dor nenhuma, eu até estranhei”, contou, aliviada.
A partir de agora, a doméstica espera poder continuar fazendo os seus afazeres, mas, dessa vez, sem as dores que a acompanharam por quase quatro décadas. “Eu quero ficar boa, continuar trabalhando, fazendo os meu bicos, continuar vivendo como antes, mas sem sofrimento, sem dores mais.”
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